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terça-feira, julho 10, 2012


Minha nudez não está desnuda. Tenho eras de poeira ocultando cada parte de mim. A pele está quebradiça como o solo árido do sertão. A mera insinuação de um o toque a exaspera como a promessa do orvalho que jamais se cumpre flagela a alma do retirante. Meus olhos estão lacrados uma penumbra vil. Diviso apenas pequenas mechas de luz em meio a uma imensidão sem tom e sem forma. Não contemplo senão o mesmo semblante desbotado do mundo todos os dias. Meu lábios estão sepultados por camadas infindas de folhas secas, depositadas alí por um outono incessante e inclemente, que impõe morte sobre morte. Os sons são como repetições amordaçadas de notas distantes, tessituras grotescas e inclementes como de uam voz que há muito se calou... Mas qual é o mal disso? Não desejo as alturas iluminadas por preces. Abomino a ordem martelada da moral tacanha de sempre. Pertenço à terra, ao pó, ao caos, à dúvida... Quando de fato conseguir assumir isso me sentirei desnudo de tudo.

sábado, julho 23, 2011


Preciso reclamar da falta de tempo. Necessito chegar em casa tão cansado que mal posso articular uma idéia remotamente pessoal. Quero, como um viciado, a vertingem da burrice alheia, a indiferença dos fones de ouvido, o deboche daqueles que são eternos. Estou nas paredes. No véu opaco desta noite. Em todo lugar meu ser se abre em tantas portas que não consigo fechá-las. Estou exposto diante de mim. Miseravelmente desnudo. Manchas, pêlos, imperfeições, cicatrizes. Já não suporto me ver. Estou num abismo de espelhos. Minha alma multiplicada, adensada, um pesadelo de Escher. Cerro os olhos, mas as imagens procriam ao infinito. Corro e esbarro em mim. Silencio e me vejo tão próximo, meu hálito contaminando meu hálito. Busco outro ser e toco o vácuo. Sem luz. Apenas eu. Sem barreiras ou fronteiras. Estou em estado bruto e mesmo assim não consigo deixar de estar acompanhado...

sexta-feira, julho 22, 2011

Acabou. O dia findou. A garrafa está deitada sobre a mesa sem que nehuma gota caia, sem que nem mesmo um odor nauseabundo exale. O vento se acalmou lá fora. Atémmesmo a brisa tímida não está lá para falsear vida nas folhas mortas condenadas ao chão. O âmbar dos faróis vem e vão na sincrônica procissão do retorno ao lar. Silêncio. Sem versos. Não consigo crer neles. Não os encontro também. O que os torna dispensáveis, assim como qualquer princípio divino do qual só podemos usufruir quando seus desígnios se encaixam e não quando precisamos dele, o que o torna, tal qual meus versos enfadonhos, não só inútil como sádico. Essa quietude exaspera. Talvez a atmosfera frenética da noite; o tintilar dos copos suplicando mais uma rodada de torpor; o perfume rescendendo na roupa impecável, especialmente escolhida para ocultar misérias... Contaremos história, as mesmas, recorrendo para não habitar o presente. Daremos gargalhadas largas, incontidas ou desdenharemos dos que sorriem ao nosso redor, cada qual tentando imputar aos outros a própria ridicularidade. Talvez tudo mude. Certamente talvez

sábado, julho 16, 2011


Descanse, ó mente, descanse...
Que os pensamentos se apartem de ti esta noite.
Deixa o corpo reinar sobre nós.
Permita que pele se incedeie,
Crepitando em cinzas qualquer idéia ou memória.

Adormeça, ó mente, adormeça...
Repouse teus desesperos,
Silencie tua razão.
Como luz, agora te calarás.
Serás inundada do frescor da pele ébria de suor

Apazigue-se, ó mente, apazigue-se...
Teus meandros tornar-se-ão alcovas.
De tuas leis escarneceremos.
Se não podes, apenas ignore.
O desejo só requer teu silêncio para desabrochar.

Sonhe, ó mente, sonhe...
Acordados estão meus olhos.
Contemplarei os becos com as pontas dos dedos.
Cada corpo incauto enxergarei na língua,
E meu torso lerá tecido e carne que o tocar.

Mergulhe, ó mente, mergulhe...
Segure teu fôlego e não ouses voltar.
Fica-te em segredo em algum canto embrumado.
Se pareceres afogar, aquieta-te.
Terás a eternidade para vingar-te de mim.

sexta-feira, julho 15, 2011




Ame-se. Queira-se. Possua-se. As pessoas repetem essas frases como mantras. Ouvi que deveria gostar mais de mim. Estou pensando no significado desse conselho. Regurgitando essas máximas contemporâneas. Tentando vestí-las, usá-las, sê-las. Imaginei-me enamorado de mim. Convicto de minha singularidade radiante. Auto-suficiente, um sol diante do qual tudo se curva e suplica luz. Contemplei-me ignorando os desatinos e as manias do caos. Imune aos outros. Prenhe de mim. Não suporto isso. Em meus exílios de cotidiano me vejo só e minha companhia não me basta, embora procure demonstrar o contrário. Já perdi a conta das vezes em que deixei-me em outras mãos. Alguns bocados ali. Outros pequenos pedaços acolá. Em certas mãos estou quase que inteiro, restando-me a tentiva ébria de me equilibrar nessa pequena porção diminuta de eu que me restou. Angustiante. Porém, humano. Quem somos senão metades, ínfimas partes exasperadas em busca de plenitude? Pouco nos pertencemos. Talvez a maior doença dos nossos dias seja o sentido de que somos propriedade privadas de nós mesmos. Que nos basta uma manta para reter nossa própria quentura e não um outro alguém que nos roube a supremacia sobre o território da cama. Cada dia mais desconfio do egoísmo simplória, da condenação à solidão do indivíduo, prisioneiro de si, cujo exterior é sempre espelho. Quem sabe estou amolecendo e quase margeio a espiritualidade dos "escravos" de novo, esses serem tão habituados à solidão de um Deus que os largou no deserto. Ou quem sabe redescubro a vida e faço daqui um ensaio enquanto não perco o medo de me amar menos.

quinta-feira, julho 14, 2011




A noite requer uma última palavra. Não posso embalar seu sono. Não verei seus olhos se cerrarem e não poderei sussurrar sonhos bons em seus ouvidos. Não poderei brincar com a direção de seus cabelos, tampouco aninhar-me neles. Não me será permitido cobrir seus pés que teimosos escapam das cobertas e cujos dedos tateiam trêmulos e sorrateiros o frio da madrugada. Não posso roubar seu calor e dar-lhe em troca o meu. Não traçarei novas rotas em sua pele conduzindo de leve seus medos sobre a superfície perfumada de seu corpo. Não ouriçarei a penugem sutil que lhe recobre a nuca. Não poderei tomar para mim o pesadelo que lhe constrange as feições, sonhá-lo e devolvê-lo cândido a você. Não consigo lhe oferecer minha cantiga feita beijo em seu rosto reclinado sobre o dorso de Morfeu. Não lhe apresentarei o dia que nascerá sobre nós. Você despertará ao longe e eu adormecerei nessa ausência cheia de você mais uma vez...




Tenho vontade gritar. Algo há muito sufocado em mim que cresce como um câncer que, por mais que me esforce. não consigo deixar de alimentar. Queria ferir minha garganta, rasgar cada ínfimo pedaço da rosácea morada na qual esse sentimento se aninhou. Temo destruir a mim mesmo caso o faça, pois de tão profundo já não reconheço senão através desse pathos. Mas não o faço. Como qualquer humano, não desejo deixar de ser ao mesmo tempo em que o mais quero é ser outro que não eu mesmo. Se eu pudesse ao menos gritar. Sei que nem mesmo a mais mísera e enferma folha caíria; o curso de uma breve gotícula de chuva não mudaria seu trajeto inevitável; as distâncias se manteriam intactas e o motivo desse meu berro contido com a paga de séculos de mim ainda se manteria indiferente... Ao final consigo perceber melhor. A escrita não deixa de ser uma catarse - em termos filosóficos, ao modo aristotélico. Há sempre uma revelação intrasigente e incômoda que nos lembre que até mesmo o mais pequeno dos textos está fadado ao infinito, a se projetar como além, como longínquo, como devir constante. Todo texto é infindo e eterno. Nele nos multiplicamos e nos percebemos como somos: fogo que crepita e cujo existir exige o findar. Vejo agora que é a ausência de fúria em meu grito empedernido que me dói acima de tudo. O desejo de destruição, de guerra, de mágoa em estágio de transmutação em ira. Acho que falte o ímpeto de rasgar retratos, estilhaçar cristais, esfoliar a pele até que nasça uma nova, virginal, incólume aos amores e desamores que se foram... Talvez me falta a capacidade do auto-engano, o ofício do ator que é quando se disfarça a ponto de esquecer que seu rosto é máscara.

domingo, julho 10, 2011




A noite se adensa lá fora. Os últimos vestígios da tarde se esvaem e o céu se cobre de uma suave renda negra salpicada de vazios luminosos. O vento silva na janela carregado de tinta e de asfalto. Há névoa. Quase nenhuma, uma parede diáfana entre mim e o mundo lá fora. Aqui, poesia barata, rasteira, mais necessidade do que arte, se é que esta não é outra coisa senão necessidade em seu estado mais puro, ou seja, sobrevivência. Ninguém contempla e exibe a própria pequenez à toa - na verdade iria escrever mediocridade, mas fui acometido por um estranho senso de amor-próprio, muito raro nesses dias devo admitir. Tento em vão preencher a mente com alguma pretensão grandiosa: livros, prazer desmedido e livre de ressacas morais, dominação do universo, felicidade... Vãs. Pretendo soar altivo a mim mesmo. Elenco conquistas. Zombo de memórias. Celebro minha superioridade de alcova, mérito da estupidez generalizada que grassa atualmente. Quero pegar algum livro inconcluso. Ou recorrer aos remédios de sempre. Ao final apenas durmo, rezando para não sonhar de novo o mesmo sonho requentado no qual minha realidade parou, cujo momento conheço com uma matemática malsã